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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Devia morrer-se de outra maneira.


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiVrT50aT71zUH9ISdia1q7LrwDztidPdb4K6YUfGpo2T_x_4-mX-LyrPrdsOUwm8icfshredZaAYWrFoOT-jZhp2wkyS8hgsJ59ZA-C43WvkCg4bryEaGpAiomoYuwVnsrPsN_ZXp-ewk/s400/paula-rego.jpg
(imagem de uma pintura de Paula Rego)

Devia morrer-se de outra maneira.

Transformar-mo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis..

José Gomes Ferreira

2 comentários:

vieira calado disse...

That´s an impossible dream...

Um abraço

Bento disse...

Era bom ser assim não era...
Abraço