"Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga".José Luís Peixoto
(A criança em ruínas)
"o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade".
José Luís Peixoto
(O tempo...)
6 comentários:
Gostei muito das duas citações. A primeira já conhecia..tão cheia de verdade...
Beijos*
Obrigado pela partilha.
Um abraço.
Adorei estes dois textos:) tens uns blogs muito giros;)parabens:)
(...)"eras tu a claridade."
É, de facto, nos labirintos e nos paradoxos que os "estados de alma" e os afectos, ganham uma dimensão que a vontade racional não domina. É, por isso, que também se morre de amor...
O José Luís Peixoto aviva-nos os "gritos" interiores, os devaneios do coração mas, os "fantasmas"- que vivem no mais secreto de nós -, não.
Abraço
PS: Obrigado pela visita.
Escolheste muito bem, tanto os excertos dos textos, como o autor a quem pertencem, por sinal, alguém de mérito e que muito admiro.
Qualquer um deles transmite-nos uma mensagem com a qual nos identificamos.
Gostei imenso.
Beijo
Acho que é impressionante a forma como o José Luís Peixoto põe em palavras aquilo que nós sentimos, que nos leva a dizer muitas vezes que "as palavras não conseguem descrever". Ele parece ter esse poder de encontrar essas palavras escondidas, ou simplesmente as palavras que não queremos dizer porque só aumentam a dor.
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